O dia em que eu chorei com o diretor do Museu Nacional
Recebi o convite do Davi, pesquisador cientifico do Museu do Amanhã, para acompanhar a abertura do 3º Encontro Nacional da Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciências. O 3ABCMC já estava confirmado desde março desse ano e a mesa-redonda que abriria o evento em grande estilo seria em comemoração aos 200 anos do Museu Nacional… Se não fosse o incêndio trágico que abalou todo o país num domingo a noite.
Nove dias após o incêndio, tinha chego o primeiro dia do evento e a mesa ainda estava confirmada com a presença do Paulo Kanauss, Ildeu de Castro, Luciane Gorgulho, José Ribamar e, claro, o diretor Alexander Kellner.
Cheguei 30 minutos atrasado ao Museu do Amanhã por causa do trânsito mas dei a sorte dos organizadores terem se atrasado também. Quando localizei dois lugares vagos no auditório lotado — um para mim e outro para Giovanna, minha namorada — deu-se início a mesa, que agora não tinha mais um tom de celebração, mas sim, o que eu achei ser, um tom de luto.
Abrindo a mesa, Paulo Knauss falou abertamente ao público sobre as grandes dificuldades que os outros museus e instituições públicas do Brasil passam. As mesmas que o Museu Nacional enfrentou e ainda enfrenta: falta de repasse do pouco investimento que tem, manutenção precária, falta de infraestrutura adequada e muitos outros. Ele, como diretor do Museu Histórico Nacional, sabia do que estava falando.
“Alexander, me desculpe se não tenho mais nada de inspirador para dizer a você mas deixo a total solidariedade de todos os museu do IBRAM (@museusbr)”
— Paulo Knauss, Museu Histórico Nacional via Twitter
A bola da vez foi passada para o presidente da SBPC, Ildeu e depois para Luciane, chefe do Departamento de Economia da Cultura do BNDES, que demonstraram solidariedade ao Museu Nacional e sua equipe. Tiveram momentos mais acalorados em que o público se exaltou enquanto Ildeu criticava a atuação do governo Temer frente à Ciência & Tecnologia e, entre os aplausos, era possível escutar o famoso “FORA TEMER”.
Mesmo com as manifestações do auditório e toda a solidariedade de seus colegas, Kellner se apresentava inquieto, distante e apático a tudo que era dito. Porém, quando iniciou a manifestar suas ideias e sentimentos, vimos o quão triste e revoltado ele se encontrava. Antes mesmo de dizer um “boa tarde”, com voz embargada e segurando o choro, olhou para o telão, onde tinha escrito #MuseuNacionalVive, e disse: “não sei nem se deveria estar aqui nesse momento, pois não estou em meus melhores dias”.
É diretor, não precisava nem ter dito que esse não estava em seus melhores dias. Eu via isso em seu rosto.
"Quando me chamaram para assumir o Museu Nacional eu comentei com alguns colegas e eles falaram: 'Você é louco'. E talvez eu seja, mas eu tenho o maior orgulho de ser o diretor do Museu Nacional"
— Alexander Kellner no #3ABCMC via Twitter
Todos que estavam reunidos no auditório do seu irmão mais novo compartilhavam de sua tristeza e revolta. Ouvindo você dizer o quanto se orgulhava em ser o diretor do Museu Nacional, agradecendo de coração nossa presença numa terça-feira e contando, entre os aplausos do público que agora se encontrava de pé, que poucos dias atrás, uma senhora moradora de São Cristóvão te parou na Quinta da Boa Vista para te doar uma bolsinha cheia de moedas antigas e que aquelas moedas seriam o novo símbolo da reconstrução do MN, eu chorei.
Não só eu, mas todos os presentes, os pesquisadores, professores, estudantes de graduação, pós-graduação, os técnicos, funcionários da manutenção do MN, moradores da região do Bairro Imperial, todos os Cariocas, o Brasil e o Mundo choraram com o extermínio de grande parte do acervo do Museu Nacional, do palácio que foi casa da família real e parte da história do Brasil e do Mundo.
Entretanto somente o senhor, diretor, teve que responder o que aconteceu, como deixou chegar a essa situação, por que não fez nada antes, se sabia que era uma tragédia anunciada e perguntas desse tipo para a imprensa e as autoridades. Mas nós, e muitos outros gestores de museus e centros culturais, sabemos muito bem quem são os culpados!

“O que estão fazendo com a Ciência brasileira é um desmonte!” — Ildeu de Castro, presidente da @SBPCnet no 3° Encontro Nacional da Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciências #3ABCMC.